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Especial Multimídia Educação – Ensino Médio

Maio 20, 2009

crédito: Gabriel Assunção

‘Não, você tem capacidade de fazer algo melhor, porque não está fazendo?’, indaga o professor de Susan.

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As facetas da Educação: medo, confiança, mobilização, defasagem, contradições e superação

Maio 20, 2009

Muitos perdem seus colegas para a distância. Muitos perdem seus colegas para o destino. Muitos perdem seus colegas para o dinheiro. Alguns têm o desprazer de perder seus colegas para a morte! “Lembranças… [pausa] dos colegas mortos!”

Ibrahim lembra sua trágica experiência em terras libanesas, quando perdeu colegas dos tempos de Ensino Médio para o sangrento conflito


“Estoura uma bomba perto e vê seus colegas no chão”


O contexto é de guerra. O medo não é privilégio de ninguém. O conflito envolve questões sempre claudicantes, de natureza religiosa, separatista, territorial. O empresário libanês Hussein Ibrahim Ibrahim aponta como os armamentos das mais variadas naturezas eram produtos de primeira necessidade em sua terra natal. “Armas eram a coisa mais fácil de conseguir naquela época. Era como brinquedo de criança”. Desde 23 de novembro de 1989 no Brasil, ele lembra até hoje que no Oriente Médio a lei selecionava pela força. Ainda assim Ibrahim nunca teve uma arma. De seus amigos não podia dizer o mesmo…

Ibrahim recorda a história de um colega seu que, no Líbano, tranca a porta da escola, sem deixar ninguém entrar nem sair. Ele tem uma arma. O motivo: uma repreensão do professor, que o colega de Ibrahim não admitiu

crédito: Cleverson Bravo

Ibrahim Ibrahim: "Os professores tinham medo de chamar a atenção do aluno, até de dar uma nota baixa"

“A Guerra Civil durou 20 anos. Faltávamos muito as aulas por causa das explosões: carro bomba, a resistência libanesa contra-atacava a israelense” lembra Ibrahim. Os antecedentes estão intimamente ligados a conflitos políticos. Nessa época, primeira metade da década de 1980, Israel intervém pela luta armada no sul do Líbano. Palestinos e libaneses não se entendem. O cessar-fogo começa a se desenhar quando a Organização pela Libertação da Palestina deixa a região. E para trás pelo menos dois mil mortos, em uma semana de ataque israelense. Sua voz sugere certo lamento quando toca no assunto; parece tratar de algo que ficou em aberto, uma ferida que não cicatrizou e ainda sangra. Os riscos, as noites sem dormir, o perigo à porta de casa e do colégio, no entanto, parecem ter o escaldado; não há sequer um vestígio de lágrimas em seus olhos. “Então nós faltávamos mais do que estudávamos. Os estudos eram concentrados mais em casa. Uma coisa triste”.

E quando Ibrahim e seus colegas de Ensino Médio, rapazes e moças em torno dos 16 anos de idade, estavam dentro da sala de aula, não haviam garantias de risco menor. “Os professores sentiam muita ameaça dos alunos. Por ser guerra, não tinha polícia, não tinha ninguém que comandasse a situação dos civis na cidade. Às vezes tinha aluno que entrava armado dentro da classe” conta o libanês. “Os professores tinham medo de chamar a atenção do aluno, até de dar uma nota baixa”.

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Jovens fora da sala de aula – o problema não é privilégio da guerra

Maio 20, 2009

crédito: Gabriel Assunção

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios revelou a um ano que, em comparação com 2006, o Ensino Médio perdeu 0,6% de seus alunos. Foi a única área da educação que apresentou números negativos no levantamento

No Brasil, a situação é diferente apenas quanto aos motivos que afastam os alunos da escola. São mais de 1,8 milhão de jovens brasileiros fora das instituições de ensino regular. Uma população estatisticamente relevante. O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou em estudo de 2006 que no País, os que não frequentam o colégio na faixa etária dos 15 aos 17 anos, entre os considerados miseráveis, do ponto de vista econômico, 10,7% estão fora das salas por falta de acesso. A maioria, 41,31% (cerca de 600 mil brasileiros), não está na escola porque não quer.

O cenário, a propósito, é controverso quando se espera que a falta de acesso seja o fator determinante no afastamento dos jovens menos favorecidos. Aliás, qualquer um em sã consciência não espera que essa gente fique fora da escola por insuficiência na oferta, embora seja a analogia recorrente. O caso parece suscitar políticas mais efetivas, que mostrem para o brasileiro menos esclarecido, que a educação é, de fato, um caminho para a emancipação. Em comparação com 2004, por exemplo, apenas 11,2% não estudavam por simples falta de condições. Uma diferença, convenhamos, quase irrisória. No levantamento da FGV, a dificuldade no acesso está ligada à falta de transporte escolar ou de documentação, inexistência de escola perto de casa, falta de vaga, ninguém para levá-lo, doença ou incapacidade.

crédito: Gabriel Assunção

Problemas crônicos no Ensino Médio, feito contingente de professores sem especialização e outros que não atuam na área da própria graduação, quase que inviabilizam, em última análise, a proposta do Reuni, de expansão das universidades federais

O Centro de Políticas Sociais define os parâmetros da pesquisa seguindo alguns critérios. Interesse do aluno, por exemplo, está relacionado à conclusão da série ou curso desejado. A falta de interesse dos pais ou responsáveis é outro fator que tem influência, em especial pela escassez nos recursos ao alcance da família. Assim, a Fundação contabiliza quando essa gente prefere que, ao invés de freqüentar o ensino médio, o filho contribua com a renda doméstica.

O fluxo migratório também tem sua relevância na classificação da FGV. Na faixa etária dos 15 aos 17 anos, quem não frequenta a escola, entre os brasileiros que não saíram de sua cidade natal, 26% precisa se sujeitar a abandonar o ensino médio pela necessidade de trabalhar. Nas mesmas condições, mas analisando alguém que vive fora de sua cidade natal, desde oito ou nove anos, por exemplo, a evasão é de 34,8%. São muitos números, não? Contudo, podemos deixar as coisas mais simples, na medida em que o seguinte cenário é possível. Um paranaense de 17 anos, branco, que more com os pais e um irmão, possua uma renda familiar total estimada em R$ 2.500, e o chefe da família tenha pelo menos o Ensino Médio incompleto, tem quase 70% de chance deixar a escola pela necessidade de trabalhar, mas apenas 5% de chance de não freqüentar alguma instituição pela falta de acesso.

Realidades do Brasil – Num breve panorama, veja o que constatou a amostragem do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a respeito dos ‘Motivos da Evasão Escolar’.

infográfico: Gabriel Assunção / Cleverson Bravo - fonte: FGV/IBGE

Ainda que na mesma faixa etária, alunos do Ensino Médio têm maiores chances de deixar a escola por precisar ajudar na renda familiar nas regiões brasileiras mais pobres, do que em regiões mais ricas

Observados as condições médias de um aluno na faixa etária do Ensino Médio, entre os estados da Federação com o menor (Alagoas) e o maior (Distrito Federal) Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, há uma defasagem considerável (15 pontos percentuais) na necessidade do jovem ajudar nos afazeres domésticos, ter emprego formal ou simplesmente não ter dinheiro para as despesas na escola, em detrimento de seu ingresso no último estágio do ensino obrigatório.
[O IDH é o parâmetro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para relação entre PIB per capita, corrigido pelo poder de compra da moeda de cada país, expectativa de vida e educação.]

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Aluno e professor – a relação que a guerra destrói e a paz reergue

Maio 20, 2009
crédito: Gabriel Assunção

As aulas da professora Rosane Maria Bobato ganharam fama entre algumas gerações de alunos da Santa Gemma Galgani. Quem foi que disse que a relação entre quem ensina e entre quem aprende precisa ser orientada pela frieza ou pelo confronto?! Por essas e outras, como diriam Nando Cordel e Dominguinhos...

Na vida estudantil de Ibrahim, os professores se permitiram cumprir os conteúdos da grade curricular, sem extrapolar o papel de educador, o que por certo guarda seus méritos. Não foram além da gramática, quando poderiam se submeter a representar algum alívio entre as bombas que alvejar a sala a qualquer momento. Em condições semelhantes, na mesma faixa etária do Ensino Médio, no Brasil, alguns mestres, na acepção da palavra, inserem à mera transmissão de conhecimentos, que é justificativa de seu trabalho, um modo cativante de ir além. Permitem a si mesmos, e aos seres humanos que se encontram ao seu redor, uma relação que à primeira vista não se espera entre as quatro paredes de uma sala. Mas sim, que relembra os muros da própria casa.

crédito: Gabriel Assunção

...quem tá fora quer entrar, mas quem tá dentro não sai!!!

A professora Rosane Maria Bobato leciona a mais de uma década na Escola Santa Gemma Galgani, em Curitiba. Já foram quase 12 mil alunos que passaram pela sua mão, sentiram o seu carinho, ganharam uma perspectiva de vida, viraram cidadãos. Um perfil com mil amigos virtuais no Orkut não foi suficiente para Rosane. Sua popularidade é ainda maior. Ela não precisou de nenhuma arma, fosse para cativar os alunos ou para ter uma relação respeitosa com eles, o que não significa que estivesse desarmada. Tatiane de Fátima Araujo, hoje com 18 anos, conheceu bem como a competente professora, também é mestre na arte de ir além das fronteiras da sala de aula.

Um cenário tão significativo, feito o construído e conduzido com tanto cuidado e apreço por uma professora, não pode ser fruto do acaso. Com uma fórmula simples, Rosane desvenda o segredo do profissional que enxerga o ser humano, a ponto de se importar com ele

Da figura profissional, Tatiane relembra o relato das próprias irmãs. “Era uma professora muito dedicada e suas aulas eram maravilhosas. Com a vivência, pude experimentar o que é ser aluna dela, e como são boas as suas aulas”. Inspirada em Rosane, Tati, como prefere ser chamada, decidiu ser pedagoga e encarar uma turma de frente, como sua mestre sempre fez. O exemplo estava ali, em pé, ao lado do quadro-negro: alguém que não a encarava como apenas mais uma aluna ou mais um número na lista de chamada. Mas uma mulher que deu todo o apoio na hora das decisões e que teve a postura compatível com a de uma mãe.

Professora se confunde com mãe: “passei por momentos muito difíceis em minha vida com a perda de minha mãe e ela veio se tornar um verdadeiro apoio, que se transformou em fundamental pra mim” confessa Rosane, professora e “mãe”,  pois compartilha mais do que conhecimento

Diga-se de passagem, foi exatamente isso que Tatiane encontrou em Rosane: uma verdadeira mãe fora de casa. Durante os três anos que passou ao lado da professora, a amizade só foi aumentando e a despedida pelo término das aulas foi substituída pela necessidade de uma querer ficar perto da outra.

crédito: Gabriel Assunção

Mesmo involuntário, Rosane Bobato instrui que a educação deixa o mundo ao alcance da mão

O Santa Gemma Galgani está localizado num bairro de famílias bem tradicionais na capital do Paraná. Uma tendência particular na região são professores que permanecem muito tempo na mesma escola. Histórias como a de Rosane e Tati são mais férteis de aflorar em lugares como esse, em que o carinho recíproco é espelho da convivência por anos consecutivos.

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Metodologia de ensino – mais do que saber o que fazer, saber como fazer

Maio 20, 2009

Ibrahim faz questão de enfatizar, em árabe, como a educação foi fundamental na busca pelos seus objetivos; sonhar e estudar vale a pena – não há patrimônio maior na vida de uma pessoa

Hussein Ibrahim Ibrahim, que fala cinco idiomas, estudou 12 anos no Líbano. Depois do Ensino Médio saiu de sua terra natal pelo medo da guerra. Uma das possibilidades de deixar sua casa com segurança e mínimas condições de sobrevivência era pelo estudo, com uma bolsa em algum outro país. E foi o que aconteceu. De fato a realidade brasileira se distingue pontualmente nessa altura, em especial do Oriente Médio.

Bolsas de estudo, por aqui, são muito mais fruto do interesse pessoal do que qualquer outra coisa. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é uma das instituições brasileiras que oferecem essa possibilidade. Em 2008, montante de 4.251 brasileiros cursavam uma especialização no exterior por essa iniciativa, inclusive para cursos de mestrado e doutorado. A doutoranda em comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Cintia Xavier, em São Leopoldo no Rio Grande do Sul, oriunda de Ponta Grossa no Paraná, é beneficiada pela bolsa e ressalta que “a CAPES é a responsável pela minha permanência na instituição pelo custeio, também, do deslocamento”. Com tese a respeito de ‘Documentário e Jornalismo’, Cintia lembra que sua bolsa está diretamente ligada ao rigoroso relatório periódico encaminhado a CAPES, com as etapas da evolução da pesquisa. “No doutorado são menos bolsas, é mais difícil, mas eu consegui” relata por telefone, a mulher que tem na voz a alegria que se confunde com algum alívio.

A 'silhueta' da educação nacional ainda parece ofuscada por uma neblina que alguns insistem em não enxergar (crédito: Gabriel Assunção)

As 'doçuras' da vida escolar parecem insuficientes quando o assunto é evasão no Ensino Médio. Num universo de mais de 1,8 milhão de jovens entre 15 e 17 anos, mais de 40% não ocupa as salas de aula, simplesmente, porque não quer

Atualmente, sinônimo de bolsa de estudo no Brasil é o Prouni, o Programa Universidade para Todos, do Governo Federal. Desde 2004, são oferecidas vagas em cursos de graduação e seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior conforme assinala o Portal do Ministério da Educação. No primeiro semestre de 2009, para estudantes paranaenses, foram mais de 14 mil bolsas, com pelo menos 7.300 integrais. No Brasil, no mesmo período, o número de vagas beneficia 156.416 estudantes, com mais de 61% sendo financiadas por inteiro. Apenas em Curitiba, no segundo semestre de 2008 foram ofertadas 3.463 bolsas do Prouni, sendo quase 33,5% de integrais.

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Negligência – a vergonha de um país que deixa a educação para depois

Maio 20, 2009

O que representa o dia 22 de abril? Para algumas pessoas distraídas, nada. Para o Brasil, tudo

Tamanho desleixo, de não lembrar a data do descobrimento do País, por certo não seria visto no Líbano. Se em extensão territorial o Brasil é muito maior, a qualidade da educação por aqui não tem a mesma diferença. O filho de Ibrahim, brasileiro, já está na terra natal do pai há quase uma década. O empresário lembra-se da preferência do filho pelo Brasil; no Oriente Médio, ele vive com a avó. Não fosse pela educação, não haveria razões para deixar mais um brasileiro um tanto quanto contrariado no exterior.

Ibrahim relata o curioso caso de colegas seus, que estudaram no Líbano, e depois cursaram a faculdade de Engenharia em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Nas palavras dele, como os conteúdos vistos em certas disciplinas, em especial no início do curso, eram idênticos aos ministrados nos anos de Ensino Médio no Líbano

Ibrahim nunca teve aulas do currículo regular, exceção feita à gramática, em árabe. Aprender química, física, história, geografia, biologia e matemática apenas em francês e inglês. “Se não for assim, como o aluno vai aprender outro idioma?” questiona o libanês, numa equação que parece simples e óbvia, embora nem sempre observada. Nossos problemas com educação ainda recaem nas condições mais simplórias.

'Recebi uma educação positivista', lembra (crédito: Cleverson Bravo)

André Ribeiro: "O professor constrói o conhecimento com a sala de aula. Porém, não acredito que esse possa aprender mais com o aluno do que o contrário. Não! Acho que o professor sempre deve saber mais que o aluno. Afinal de contas, por isso ele é professor..."

O professor de filosofia André Luís Ribeiro, que ministra aulas de história em Curitiba, discute o papel do livro didático. Sua crítica recaí sobre o pouco nível reflexivo que algumas editoras oferecem, embora como ele assinala no vídeo a seguir, o livro seja um apoio, a “cereja do bolo” em toda uma construção que envolva uma série de iniciativas por parte do professor.

O professor André Luis Ribeiro define como pode ser a relação, por vezes conflitante, entre mestre e livro didático

A professora Rosane Maria Bobato lembra dos transtornos causados pela mais recente Reforma Ortográfica

A professora e diretora Sihan Boehm Ibrahim Arram trata do aporte do material didático pela perspectiva burocrática e vislumbra o futuro dos formatos atuais

A seu modo, o governo brasileiro tem tomado algumas iniciativas. E, como é sempre bom assinalar, tentando prestar seu papel de servidor e provedor, dentre outras coisas, da educação.  A resolução número 38 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação implantou em 2004, o Programa Nacional do Livro de Ensino Médio. O objetivo fundamental passa pela universalização dos livros didáticos para os alunos do ensino médio público do País. Por essa medida, os estudantes recebem o material didático válido para todos os três anos, derradeiros no currículo regular. Seu aporte inicial foi de 2,7 milhões de livros das disciplinas de português e de matemática, destinados a estudantes do Norte e Nordeste de mais de cinco mil instituições. Os investimentos já superaram os 121 milhões de reais, e até 2008, os beneficiados passaram de sete milhões de alunos.

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Resultados – ainda assim, nem tudo é o que parece ser

Maio 20, 2009
Susan Jacobinsk 'ousou' pesquisar a fundo a mente dos psicopatas, ainda no Ensino Médio (crédito: Robson Custódio)

Susan desenvolveu seu projeto, de qualidade compatível com o ensino especializado e não com o Ensino Médio, graças à ajuda da escola. Ou do contrário, não haveria recursos suficientes na sua família para custear os gastos; inclusive, com deslocamento em algumas oportunidades, como para representar a instituição na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, a Febrace, na Universidade de São Paulo, a USP

Susan Jacobinsk tem 16 anos. Presta o vestibular no final de 2009. Não é preciso perguntar duas vezes qual carreira ela pretende seguir. A moça fala sobre a psiquiatria com o entusiasmo de quem saboreia uma barra de chocolate ao leite. Sua história não é das mais recorrentes. Cursa o Ensino Médio em uma das instituições mais representativas de Curitiba; e representatividade, hoje em dia, não custa pouco. Nada menos que 600 ou 700 reais mensais, se você quer saber!

Mas o traço mais marcante de sua trajetória está relacionado a um projeto que ela desenvolveu há mais de um ano. Susan fez um estudo sobre os comportamentos relativos à psicopatia: “Interface entre lei e psiquiatria: é possível tratar a mente de psicopatas”. Um trabalho que a tirou do anonimato. E ofereceu uma responsabilidade bem interessante. A menina lembra que “se eu faço um trabalho meia-boca eles [os professores] falam ‘não, você tem capacidade de fazer algo melhor, porque não está fazendo?’. Quando você demonstra que tem mais condições, da mesma forma que o reconhecimento aumenta, a cobrança cresce e tudo vai tomando proporções gigantescas”.

Ibrahim relata a influência e o que significou a figura de Saddam Hussein em sua trajetória escolar


crédito: Gabriel Assunção

O 'foco' ainda deixa a desejar quando se discute educação no Brasil

Ibrahim conheceu Saddam Hussein, na época em que o governo iraquiano financiou seus estudos em nível superior. Tornou-se engenheiro, apesar da formação ter sido uma mera condição para fugir da guerra no Líbano, o que explica porque jamais se sujeitou a atuar na profissão – não era aquilo que queria para vida. Viveu inclusive no Iraque, na época do auge de seu ditador. “Eu rodei mais da metade da Europa, vivi quatro anos no Iraque. Não encontro a paz que tenho aqui [no Brasil]”. Convenhamos, alguém que sabe do que está falando.

A morte esteve presente durante a formação estudantil de alguns dos personagens que você conheceu até aqui. Ibrahim, apesar de viver entre as delícias da doceria que mantém hoje no centro de Curitiba, viu a morte de seus amigos no Líbano. Também a vislumbrou pela mão daquele, Saddam Hussein, que representou um caminho para a segurança e o sustento em sua vida, numa época sangrenta. Rosane, a professora de Tati, perdeu a mãe, mas não a esperança na educação, que resplandecia na filha que acabara de ganhar e “já veio pronta”, como ela mesmo gosta de dizer. Susan, que saiu do anonimato, acreditou no projeto para desvendar a mente de vorazes “matadores”, os psicopatas, por vezes, esquecidos até pela medicina.

Circunstâncias suficientes para fazê-los desanimar e largar tudo. Todos, apesar disso, optaram por seguir nos caminhos da educação, em busca da vitória pessoal, em busca da emancipação, em busca do futuro. Eles venceram. Não deixaram de ser duramente marcados pela morte. Mas escolheram a vida.